Você já ficou contemplando as águas do mar engolindo a areia da praia? E as gaivotas indo e vindo? Já se deixou hipnotizar pela lenta ondulação do mar, pelo mistério do ar, do vento sacudindo as folhas de uma árvore grande beira de rio?
Sabe do que falo quando pinto a dança que os crisântemos realizam nos campos? do milharal - da roseira solitária - dos pingentes orvalhados brilhantes e tímidos da relva aparada antes do crepúsculo?
Sabe do que comentam as andorinhas fim de tarde depois que voltam de não sei onde que estavam? Porque somem todas durante o dia? e voltam de tardezinha, dançantes e barulhentas?
Sabe qual a melodia quando falo das cantigas de ninar para os meus bebês, todos enfiados nas franjas das minhas saias, embrulhados nas dobras dos meus braços? de como era quente o corpinho suado ressonando embalado na hipnose do cântico moroso de apenas algumas sílabas repetidas todas em alguns murmúrios?
Sabe de como é botar a mão fora da janela a ver se o vento é frio demais pra deixar a molecada sair para o quintal onde romãzeiras florescem?
Eu sei que o bom do viver são pequenos nadas que se multiplicam quando lhes damos importância - e tenho destes tantos retalhos a minha colcha já grande - abrigo alheio...
Sei que o viver é feito de mortes diárias e renascimento contínuo - folhas, sementes, crepúsculos e nuvens, tristezas estúpidas e angústias inomináveis - alegrias minúsculas - feitas de quase nada...
Sabe do que falo?
Eu bem sei quando o digo...
terça-feira, 8 de junho de 2010
A Palavra é...
Gosto da liberdade que a palavra me concede...
da clausura de um verso solto e livre, sem métrica.
Nesta nave chamada palavra, me submeto rotineiramente e desmonto todas as rotinas, posto que sempre o inusitado acontece. A solidão se foi para longe desde que me visitaram as palavras e o poema. Este, meu mais íntimo companheiro, sempre me surpreende e comove, porque suas faces nunca me cansam, nunca são as mesmas!
E ... se porventura algo se repete é sempre para marcar um tom, uma melodia das esferas, esferas tão terrenas e banais quanto transcendentais...
- sobretudo - pareço-me com a palavra - aquela que ainda não encontrei - ou aquelas todas minhas amigas companheiras comadres - aqueles vocábulos meus de toda tarde noite manhã - saindo das páginas que ainda não li e que vivem de me instigar para que o faça tão proximamente.
Gosto amo de me perder das vírgulas e emaranhar-me nelas as palavras sobretudo quando me vêm pela madrugada frias e duras pontiagudas me levando a querer morrer - para logo me deixarem ávida de mais vida apenas para mais as adorar e viver de nelas mergulhar - adoro palavras descansadas e tímidas - palavras pétalas, caindo, desfazendo-se feito lágrimas - porque é uma coisa linda a lágrima - a coisa mais linda...
Até a palavra lágrima é por si mesma algo de poético - nem sempre triste - mas poético... tudo o que é poético é algo que não se explica, nem se diz - porque quando se diz a essência se esvai, se perde - feito lágrima - feito perfume se volatizando - palavra é muito sutil...
da clausura de um verso solto e livre, sem métrica.
Nesta nave chamada palavra, me submeto rotineiramente e desmonto todas as rotinas, posto que sempre o inusitado acontece. A solidão se foi para longe desde que me visitaram as palavras e o poema. Este, meu mais íntimo companheiro, sempre me surpreende e comove, porque suas faces nunca me cansam, nunca são as mesmas!
E ... se porventura algo se repete é sempre para marcar um tom, uma melodia das esferas, esferas tão terrenas e banais quanto transcendentais...
- sobretudo - pareço-me com a palavra - aquela que ainda não encontrei - ou aquelas todas minhas amigas companheiras comadres - aqueles vocábulos meus de toda tarde noite manhã - saindo das páginas que ainda não li e que vivem de me instigar para que o faça tão proximamente.
Gosto amo de me perder das vírgulas e emaranhar-me nelas as palavras sobretudo quando me vêm pela madrugada frias e duras pontiagudas me levando a querer morrer - para logo me deixarem ávida de mais vida apenas para mais as adorar e viver de nelas mergulhar - adoro palavras descansadas e tímidas - palavras pétalas, caindo, desfazendo-se feito lágrimas - porque é uma coisa linda a lágrima - a coisa mais linda...
Até a palavra lágrima é por si mesma algo de poético - nem sempre triste - mas poético... tudo o que é poético é algo que não se explica, nem se diz - porque quando se diz a essência se esvai, se perde - feito lágrima - feito perfume se volatizando - palavra é muito sutil...