sexta-feira, 2 de julho de 2010

PROSA POÉTICA - DIÁLOGOS INQUIETOS

...Meus olhos de águia domavam as distâncias enquanto o carro vencia cada esquina, fuzilando sem pressa cada curva, cada parada, nada retilíneos curvavam-se para detectar o espaço no tempo de cada esquina.
Tomamos certa direção, nada aleatoriamente, no caminho contrário ao habitual. Era olhos inteiramente, enquanto todo o corpo tensionava-se no banco estreito, apertado o cinto sobre o peito. Parei, olhei, parei decididamente, abrindo de inesperado a porta que emperrava... Saltei ali mesmo, antes do quintal, na beirada da rua, olhando o coqueiro. Em todo ele, trepadeira de flor branca, subia serpentina enroscando-se... O cheiro vinha me enlaçava...
Tirei os sapatos, pés na grama, passos lentos... Era de endoidecer o desejo de ficar ali naquele entreato, antes de encontrar a entrada, a cama macia, lençóis para descanso. Tinha querido engolir o aroma daquelas flores repentinas, abertas, inteiras, generosas...
O dia em que passei mergulhada nas pesquisas diárias ia, e ali estava a retornar, calada, solitária, porém, plena. Pensei em meus neurônios, nas informações carregadas por eles, nas associações mentais que me engolfavam numa inquietante viagem mental... Seria eu uma esquizóide sem cura? Tantas vezes meus pensamentos alucinavam-me para além da compreensão e eu me encontrava sem respostas. Um porquê dava origem a outros porquês e as respostas? Apenas reticências... Naquela estrada que me via a percorrer, não havia porto de chegada.
A verdade é um caleidoscópio, mutável sempre.
Olhava o porteiro sentado em seu plantão, antes o pegara estudando nas horas vagas. Ele me confidenciara, estudava eletrônica depois das conversas longas que tivemos entre minhas idas e vindas. Matriculara-se num curso noturno. Olhei o caderno do porteiro, riscado de anotações, números, e o vi na faina de resolver equações...
Não era mais um porteiro qualquer, lia.
Uma sala de aula, a portaria, ele e eu, mestre e discípulo. Tomamos café, sentamos. O tempo escorreu pela língua, fez-se um vácuo.
Transbordava de beleza cada minuto. Desci a escadinha e o porteiro veio sorridente. Na mão, uma flor. Era para mim. Nos tomamos de amizade, e ele foi indo me contou que estava terminando o curso.
Descia a escadinha, subia, de retorno e saída, e ele vinha, me contava... ele veio, me contou, não era mais porteiro.
Nas entre horas da lida, digerira a matemática e a física, compreendera, fez-se um degrau, pulou.
O tempo bifurcava-se na retina das horas, estava eu, só, na portaria...
Meus livros, porteiros inquietos, amigos de longas conversas, me aguardavam...

Geralda Eni Gonçalves

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